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quarta-feira, 8 de maio de 2013

JAMAIS VOU TE ESQUECER ...
Um conto de Rose Madeo

PARTE  I

Existe amor à primeira vista?



Meu diário
Ela sobe no palco e meu coração dispara. Em seu violão, há um adesivo de Jimi Hendrix, seu ídolo. Fico olhando seus dedos tão precisos nas cordas do violão, e imagino aqueles dedos a dedilhar meu corpo.
Ah! Ela é linda! Sedutora! Seu sorriso encanta a minha alma! Seu olhar me faz sentir arrepios…
Existe amor à primeira vista?
Estou de férias em Salvador, Bahia. Janaína, uma colega de trabalho e amiga, me convidou para passar uns dias na casa de seus pais.
Meu nome é Rosana, trabalho como Tradutora e Intérprete no setor público. Tenho 34 anos, solteira, saí de casa com 19 anos.
Sempre fui muito independente e madura na minha juventude, e morar com meus pais, não deu certo. Quando eles descobriram a minha condição sexual, me levaram a psicólogos, psiquiatras, igrejas, centros espíritas… Enfim!
No começo, morei com uma tia. Ela era da “pá virada”. Muito gente fina, praticamente me adotou. Graças a ela, pude estudar e passar no vestibular para uma universidade pública. Terminei meu curso, fiz prova para um concurso público federal e passei. Hoje, moro e me sustento sozinha.
Minhas férias são sempre em janeiro, porque eu amo o verão! Adoro curtir a praia, o mar, uma cerveja bem gelada com amigos e viajar. Sempre que eu posso, eu viajo. Às vezes, sem destino.
Janaína, seus primos e eu, fomos a um show em uma casa noturna ontem à noite. Foi lá que a conheci. E me apaixonei! E me entreguei.
Durante o show, ela me chamou no palco e, cantando, dançou comigo. Ah, se eu pudesse, teria lhe dado um beijo ali mesmo.
Quando ela terminou de se apresentar, foi até a mesa onde nós estávamos e me deu uma rosa vermelha.
- Você merece! Dançou muito bem!
Eu me engasguei quando ouvi a voz dela falando em meu ouvido, era quase um sussurro. Um arrepio correu minha espinha e eu comecei a suar. Que ridícula! Não sou mais uma adolescente!
- Quer dançar comigo?
Sem hesitar, e antes que ela desistisse, fui dançar com ela.
- Qual o seu nome?
- Rosana. O seu é Luisa, não é?
- Isso mesmo. Você não é daqui, seu sotaque é familiar. Carioca. Acertei?
- Acertou! E você, paulista. Certo?
- Certo! Em qual hotel você está hospedada?
- Em nenhum, estou na casa de amigos.
Novamente ela sussurra em meu ouvido.
- Estou muito tentada a te dar um beijo na boca… Agora.
- Ficou maluca? Não faça isso!
- Se você sair comigo daqui e ir para o meu hotel, eu não faço. Não aqui.
- Muito atrevida você! Por que acha que eu te deixaria me beijar?
- Porque eu te atraio.
- Pretensiosa também.
Ela deu o sorriso mais lindo que eu já tinha visto em toda a minha vida.
- Você também me atrai, Rosana. Por que acha que, entre todas as mulheres, eu chamei você para subir ao palco?
- Porque eu estava mais próxima?
- Não. Porque amei o jeito como me olhou. E como está me olhando agora.
Avisei Janaina e seus primos, deixei um dinheiro para eles pagarem a conta e fui para o hotel de Luisa.
Assim que entramos no quarto, fomos nos despindo, nos beijando, nos tocando… Foi uma loucura!
As mãos dela apertando minhas nádegas, e sua boca sugando meus seios, me fizeram gemer, até gritar. Ela me penetrou com um desejo avassalador, e eu gozei! Ah! Como gozei!
Ela deslizou sua língua em cada centímetro de meu corpo, e quando tocou minha parte íntima, eu delirei! Meu corpo tremia, suava, se debatia em êxtase. E gozei mais uma vez!
Dominadora! Nossa! Ela me colocou de bruços, prendendo meus braços e roçou em minhas nádegas, até gozar. Depois, eu a enlouqueci com minha língua por todo seu corpo… E que corpo!
Que noite! Tivemos vários orgasmos. Que delícia, minha Luisa!
Saciadas e cansadas, dormimos.
Durante os 10 dias que passei em Salvador, fui ao show de Luisa. Depois do show, íamos para o seu hotel.
Estávamos curtindo uma paixão arrebatadora. Eu queria Luisa pra mim, não queria que fosse apenas uma aventura, um amor de verão.
- Amanhã vou embora. Até quando você fica em Salvador?
- Fico até o final da próxima semana. Você não pode ficar?
- Não, Luisa! Volto a trabalhar na semana que vem. Quero te ver de novo.
- Eu também quero.
Luisa se levanta da cama e pega algo em sua bolsa.
- Este é o convite para o show de lançamento de meu CD e DVD. Será em São Paulo, quero que vá.
Vi a data e me decepcionei.
- Droga! Nesse dia estarei viajando com meu chefe para um Congresso na Espanha.
- Tudo bem. Depois do lançamento, farei uma apresentação no Rio. Podemos nos ver em sua casa.
- Luisa, sou carioca, mas não moro no Rio, moro em Brasília.
- Ok! Vamos ver nossas datas e arranjar uma maneira de nos vermos. Seja em São Paulo ou Brasília.
Luisa foi se despedir de mim no aeroporto.
- Já estou com saudades.
Ela me abraçou. Senti que ela também estava sofrendo por ter que se separar de mim.
- Vem, Rosana! Vamos perder o vôo.
Era Janaina me chamando. Por pouco, Luisa e eu não nos beijamos ali mesmo, na frente de todos.
Janaina e eu embarcamos. Sentada, fiquei lembrando dos momentos que passei com Luisa. Senti um aperto no meu peito, um medo de não encontrá-la mais.
- Amiga você está bem? Está com uma carinha de triste!
- E estou triste mesmo. Vou sentir falta dela e de tudo que passei aqui. Estas foram as melhores férias da minha vida, Janaina! Já estou com saudades.
O avião decolou rumo à Brasília.
Luisa e eu nos falávamos via Internet. Isso, quando ela tinha tempo, que era raro! Eu estava contando os dias para reencontrá-la. Seria na semana seguinte ao lançamento de seu CD e DVD. Ela viria a Brasília.
Dois dias antes do lançamento, meu chefe me comunicou que a viagem à Espanha fora adiada.
- Janaina, vem cá, preciso falar com você.
Fomos até o banheiro.
- Acabo de saber que não vou viajar para a Espanha. Posso ir ao lançamento do CD e DVD de Luisa. Vamos comigo?
- Você se esqueceu que ela deu apenas um convite?
- Não tem problema! Quando chegarmos lá, tenho certeza de que ela vai arranjar um convite pra você também. Vamos, Janaina! Por favor!
- Ok. Quando você ligar pra ela, avisando que nós vamos, ela poderá providenciar a minha entrada.
- Não vou avisar, farei uma surpresa!
- Está bem! Eu vou com você. Se não conseguir convite para eu entrar, vou aproveitar a noite Paulistana, que eu adoro!
Entrei na Internet, comprei nossas passagens e reservei quarto em um hotel próximo ao local do show e lançamento.
Via Funchal, uma casa de espetáculos na Vila Olímpia, região central de São Paulo.
- Aguarde aqui, Janaina. Vou entrar e procurar Luisa para pedir um convite pra você.
Nossa! A casa era um luxo! Perguntei a um segurança onde eu poderia encontrar Luisa. Ele disse que ela deveria estar no camarim, mas que eu não teria acesso, apenas pessoas autorizadas.
Eu precisava encontrá-la para que Janaina pudesse entrar. Resolvi tentar achar onde ficavam os camarins. Andando pelo local, cheguei a um bar.
- Por favor, onde ficam os camarins?
O barman me explicou como chegar lá.
- Mas se eu fosse você, nem tentava, vão te barrar antes que consiga chegar ao corredor.
- Obrigada.
Como o barman havia dito, fui barrada. Nenhum de meus argumentos foram úteis para conseguir ir ao camarim de Luisa.
Eu não queria telefonar, queria que fosse uma surpresa, mas não tive opção. Liguei e o telefone estava desligado. Droga! Então liguei para Janaina.
- Janaina, ainda não consegui falar com Luisa. Espere aí, não vai embora, assim que eu encontrá-la, vou te buscar.
Resolvi ficar na entrada do corredor que dava para os camarins. Uma hora ela teria que sair e passar por mim. Minha dedução estava certa! Quinze minutos depois, vi várias pessoas vindo em minha direção, uma delas era Luisa.
Meu coração disparou no momento em que eu a vi. Queria correr para os braços dela, mas um batalhão de seguranças estava à sua frente.
Algo me chamou a atenção. Abraçada à Luisa, havia uma mulher. Alta, elegante, com um lindo sorriso. Ela passava as mãos no rosto de Luisa. Me escondi atrás de uma pilastra para não ser vista.

PARTE  II
O grupo se dirigiu ao bar. Fui atrás. Luisa se sentou a uma mesa junto com o grupo. Ela olhava para aquela mulher com um olhar terno, o mesmo olhar que me dava. E o mesmo sorriso. Resolvi me aproximar.
Quando Luisa me viu, era como se estivesse vendo um fantasma. Ela falou com outra mulher e esta, veio em minha direção.
- Venha comigo, por favor. – Disse a mulher, me pegando pelo braço.
- Solte-me! Para onde está me levando?
A mulher nada respondeu e me levou ao camarim. Finalmente consegui! Mas não era bem assim que eu pensava em entrar no camarim de Luisa.
- Sente-se. Quer beber alguma coisa?
- Não. Quero saber por que estou aqui.
- Luisa pediu que eu a trouxesse pra cá.
- Ela vem me ver?
- Sim.
A mulher parecia um sargentão.
Quando Luisa entrou no camarim, começou a falar comigo. Havia certa animosidade em sua voz.
- O que está fazendo aqui? Pensei que você estava na Espanha.
- A viagem foi adiada.
- Por que não me telefonou dizendo que viria?
- Porque quis te fazer uma surpresa. E acho que consegui.
Percebendo que estava sendo indelicada, ela me abraçou e me beijou. O beijo me deixou sem fôlego.
- Desculpe-me, Rosana. Não quis ser grosseira com você. É que realmente fiquei surpresa.
- Você quer que eu vá embora?
- Não. Quero que fique.
- Luisa, eu não acho uma boa ideia. – Disse a sargentão.
Luisa ignorou o comentário da mulher.
- Seu convite é para a área vip. Não poderei te dar atenção, mas prometo que depois do show, vou vê-la. Onde você está hospedada?
Falei o nome do hotel.
- Logo após o show, terei que dar entrevista aos repórteres. Irei assim que eu me livrar deles, está bem?
- Luisa, eu continuo não achando uma boa ideia.
- Não se meta Eliane. Sei o que estou fazendo.
- Sabe mesmo? Creio que não.
Alguém bateu à porta.
- Vamos Luisa! Vai começar.
- Já estou indo.
A pessoa saiu, fechando a porta.
- Fique linda e cheirosa para quando eu chegar.
Luisa me beijou e saiu. Acabei me esquecendo de pedir a ela um convite para Janaina. Fui obrigada a pedir para a sargentão.
Ela me entregou o convite e disse:
- Melhor você não esperar por ela.
- Vou esperar sim. Se ela disse que vai, ela vai!
- Tudo bem! Depois não diga que não avisei.
Saí do camarim e fui até a entrada para buscar Janaina.
- Você demorou! Pensei que tivesse esquecido de mim.
O show foi maravilhoso! Luisa tinha talento e carisma. Ela é linda, sedutora, perfeita!
Quando o show acabou, Janaina e eu fomos para o hotel.
- Por que não falou que nosso quarto vai virar um quarto de motel?
- Estou te falando agora.
- E você está pensando em que? Numa orgia?
- Claro que não, Janaina!
- Você pode me dizer onde eu vou dormir?
- Aqui mesmo. Prometo que não faremos barulho.
- Ah! Me poupe, Rosana! Vou lá embaixo ver se tem outro quarto pra mim.
- Não precisa. Pode ficar com esse, eu troco.
Facilmente consegui outro quarto e pedi ao recepcionista para passar o número do quarto para Luisa.
Peguei minhas roupas e transferi para o outro quarto. Tomei banho e fiquei esperando por Luisa.
Uma hora da manhã. Duas horas. Duas e meia. Ela não vem. O telefone toca.
- Desculpe, senhora. Aqui é da recepção. Há uma mulher…
- Pode mandar subir. Obrigada.
Ela veio! Quanta ansiedade! Fiquei parada na porta, pronta para abrir quando ela batesse. Ela bateu e eu abri.
- Você?!
- Não era para eu subir, mas você desligou o telefone na cara do recepcionista.
- Onde ela está?
- Ela não vem, por isso estou aqui. Vamos conversar aqui no corredor e acordar os hóspedes?
- Não. Entre.
Era a sargentão. Não sei porque, mas eu não gostava dela.
- E então? O que houve? Por que Luisa não veio?
- Eu te avisei que ela não viria. Se tivesse me escutado, não teria perdido sua noite de sono. E nem eu.
- Fala logo! O que aconteceu?
- Ela ficou presa em um compromisso. Pediu que eu viesse te avisar que vai se encontrar com você depois do almoço, por volta das 15 horas, neste endereço.
Ela me entregou um papel.
- Você pode pegar um táxi, não é longe daqui.
A sargentão abriu a porta para sair.
- Espere! É só isso?
- Contente-se! Isso é o bastante, acredite! Você vai ao encontro?
- Claro que eu vou! Às 15 horas estarei lá.
Ela saiu, me acenando com continência. Digna de um sargento!
Às 15 horas, parei em frente a um prédio na Avenida Brigadeiro Faria Lima. Entrei e falei com o porteiro, que me anunciou.
- Pode subir, senhorita.
Quando toquei a campainha, para a minha desagradável surpresa, a sargentão abriu a porta.
- Você de novo? Que brincadeira é essa?
- Relaxa, garota! Entre.
Luisa estava ao telefone. Quando me viu, me mandou um beijo e fez sinal para que eu me sentasse. Eu me sentei. Sofá confortável!
- Quer beber alguma coisa?
- Não, obrigada.
Luisa desligou o telefone e eu me levantei. Ela me abraçou forte, e me deu um beijo na boca. Eu fiquei tonta.
- Desculpe-me por ontem, não tive como me livrar do compromisso.
- Tudo bem. Hoje você vai ser só minha, não vai?
Falei, olhando para a sargentão.
- Sim! Hoje sou todinha sua!
- Até às 20 horas. – Disse a sargentão.
- Eliane, eu já disse que não.
- Luisa, você pode me acompanhar até a outra sala?
- Não vai embora, eu já volto.
Luisa e a sargentão entraram em outra sala e fecharam uma porta de correr.
Estavam lá há 10 minutos. A sargentão alterou a voz. Eu estava muito curiosa para saber o que elas conversavam, então, cheguei mais perto.
- Ok! É mais uma de suas aventuras, mas você não acha que está extrapolando?
- Rosana não é uma simples aventura.
- Você não está querendo me convencer que está apaixonada por essa mulher.
- E se estiver?
- E Clarice? Você vai deixá-la?
- Não.
- Pode ser mais clara?
- Você não iria entender. Nem eu entendo!
- Tente!
- Rosana é uma tempestade, com raios e trovões. Clarice é a calmaria, o porto seguro.
- E você pretende ficar com as duas. É isso o que está pensando? Se for, me avise, porque quero estar fora dessa jogada.
- Você não pode fazer isso! Preciso de você.
- Não, Luisa! Eu sempre encobri suas aventuras, suas mentiras, mas desta vez, sinto muito, não vou participar disso.
- Por que não? Qual a diferença?
- A diferença é o que você acabou de dizer: que Rosana não é uma simples aventura. Não percebe que elas podem sair machucadas?
Eu abri a porta.
- Quem é Clarice?
- Estou saindo. Às 20 horas preciso do apartamento, espero que já tenham ido embora.
A sargentão saiu, me deixando a sós com Luisa.
- Responda, Luisa. Quem é Clarice?
- Vem cá, sente-se aqui.
- Não. Quero que responda minha pergunta.
- Lembra daquela mulher que estava comigo ontem no show? Ela é Clarice.
- Sim. E?
- Ela é minha mulher.
- Sua mulher como?
- Minha mulher! Minha companheira, esposa.
Eu me sentei. Apesar de já saber a resposta, parecia que tinham me acertado uma pedra na cabeça.
- Desculpe! Eu ia te contar tudo, mas não tive oportunidade.
- Não teve oportunidade? Ficamos 10 dias juntas em Salvador e você vem me dizer que não teve oportunidade? Pelo amor de Deus!
- Se eu te contasse, você continuaria transando comigo?
- Eu fui isso pra você? Uma transa? Ah, claro! A sargentão disse que sempre encobriu suas aventuras e mentiras.
- Por favor, Rosana! Você é diferente, é especial. Não foi uma transa apenas, você não é como as outras.
- E qual é a diferença? Ouvi você dizer que não vai deixar Clarice, que pretende ficar com ela e comigo. Você acha que eu vou aceitar isso?
- Vai.
- Não! Não vou!
- Você vai aceitar sim. Sabe por quê? Porque está apaixonada por mim, porque me deseja, porque eu sei que não deixou de pensar em mim desde que nos conhecemos. Sim, Rosana! Você vai aceitar, porque eu quero e você quer!
Levantei e fui para a porta. Ela me segurou e me encostou na parede. Começou a beijar meu pescoço, mordiscar minha orelha, e sua mão tocava os meus seios.
 - Ah, Rosana! Eu fico louca quando estou perto de você. Quero beijá-la, tocá-la, sentir você tremendo em meu corpo, como está agora.
- Pare!
- Deixa!
- Não!
- Sim!
Ela foi me empurrando para o quarto, sem parar de me beijar. Jogou-me na cama e arrancou a minha roupa.
- Não quero!
- Quer sim!
Ah! Ela me enlouquecia! Sua voz, suas mãos, sua boca, seu corpo…Tudo nela era desejo, era paixão! Eu estava entregue. Meu corpo nu estava à mercê de seu prazer e do meu prazer. Eu estava desnuda de princípios e perdidamente… Apaixonada!

PARTE III
Seis meses se passaram. Luisa e eu nos tornamos amantes. Estava sendo difícil ter que dividir Luisa com sua mulher e com seus fãs. Ela tinha estourado! Seu CD havia vendido milhares de cópias e ela já estava trabalhando em um novo CD.
Meu trabalho também atrapalhava nosso encontro. Quando ela estava disponível, eu tinha que viajar, ou tinha reuniões, congressos, seminários… Mas eu tive uma ideia.
- Peço que tente, por favor. É muito importante pra mim.
- Conseguir uma transferência pra você, será fácil, Rosana. Eu é que não quero ficar sem seus serviços.
- Mas eu já tenho uma pessoa para me substituir, não vou deixá-lo na mão.
- Pra mim, você é insubstituível. Vamos fazer o seguinte: tire algum tempo de licença, o tempo que precisar. Se depois que voltar ainda quiser ser transferida, verei o que posso fazer, está bem?
Aceitei a proposta de meu chefe e voei diretamente para a cidade maravilhosa.
- Rio de Janeiro… Aí vou eu!
Fiquei em um hotel, enquanto procurava um apartamento para comprar. Eu havia guardado muito dinheiro durante todos esses anos, trabalhando para um “cara” muito importante em Brasília.
Visitei meus pais. Almocei com eles e depois fui visitar minha tia.
- Rosana, você não precisa comprar apartamento, esta casa é sua! Não tive filhos e vou deixá-la para você. Aliás, já está em seu nome.
- Eu sei tia! E agradeço! Mas preciso de um canto só meu.
- Entendo. Compre seu canto, e quando eu partir desta para melhor, você faz o que quiser com esta casa. Ela é sua!
Abracei minha tia, comovida pela sua atitude.
No dia seguinte, Luisa chegou ao Rio. Por telefone, ela me disse que tinha um compromisso muito importante, mas não quis me contar o que era. Fui buscá-la no aeroporto e fomos para o seu hotel. Passamos a noite juntas.
Estávamos almoçando no quarto.
- Tenho uma novidade pra te contar. Na verdade, são duas.
- Conta.
- A primeira, é que estou pensando seriamente em me mudar pra cá.
- Nossa! Vai ser perfeito! Quando? Eu estou procurando um apartamento para comprar, se quiser eu te ajudo.
- Calma, minha menina! Ainda estou pensando.
- Ok! E a outra novidade?
- Falei que tinha um compromisso aqui, lembra?
- Sim!
- Amanhã vou me encontrar com uma das melhores compositoras deste país. Ela compôs uma música especialmente pra mim.
Luisa sorriu, fazendo suspense.
- Diz logo! Quem é?
- Thereza Tinoco.
- O que?! A compositora de “O Viajante”?
- Dentre outras.
- Uau!
- Quer ir comigo?
- Sério? Você quer me levar para conhecer Thereza Tinoco?
- Você quer ou não?
- Quero! Claro que eu quero! A que horas você vai?
- Tenho que estar na casa dela às nove horas da manhã.
- Ótimo! Eu vou!
Olhei no relógio, eram quase 3 horas da tarde.
- Preciso ir. Marquei com o corretor às 15 horas. Quer ir comigo?
Vimos o apartamento. Era antigo, precisava de reforma, mas era grande e em um dos pontos mais valorizados do Rio, Copacabana.
- Oportunidade igual a esta você não vai encontrar, acredite.
- Eu gostei dele, mas não tem como melhorar esse preço? Tem muita coisa pra consertar aqui.
- Verei com o proprietário, depois te comunico.
Voltamos para o hotel de Luisa. Ela abriu a porta e ficamos surpresas com o que vimos.
- Clarice?! O que está fazendo aqui?
- É assim que me recebe?
- Você não quis vir comigo e agora está aqui. Aconteceu alguma coisa?
- Minha reunião foi adiada e quis te fazer uma surpresa. Desculpe, eu deveria ter telefonado antes.
Luisa abraça Clarice.
- Tudo bem, amor! Estou feliz que esteja aqui.
Clarice me mediu dos pés à cabeça.
- Ah! Deixe-me apresentá-las. Clarice, Rosana. Rosana, Clarice. Amor, Rosana é minha professora de Inglês e Espanhol.
Professora?! Eu?!
- Resolvi seguir o conselho de Eliane e melhorar minha dicção.
- “Nice to meet you, Rosana”.
- “Nice to meet you too”.
- “Luisa singing in English is a horror! I hope you can help it”.
- “I’ll try”!
- Vocês poderiam falar a minha língua?
- Ah, desculpe, amor! Estava treinando meu Inglês com a sua professora.
- Bem, já estou indo.
- Obrigada, Rosana. Depois eu te ligo para marcarmos um horário.
- Ok! Tchau.
Saí praticamente correndo. Peguei um táxi e fui para o meu hotel.
“Ah, desculpe, amor! Estava treinando meu Inglês com a sua professora”.
Treinando o Inglês o escambau! Ela estava é querendo me testar.
Saber da existência de uma rival é bem diferente de estar frente a frente com ela. Será que ela acreditou na história da Professora de Inglês e Espanhol? Espero que sim!
Duas horas depois, meu telefone toca. Corri para atender, poderia ser Luisa.
- Alô! Dona Rosana, por favor.
- Sim, é ela.
- Consegui um ótimo desconto para o apartamento. Se quiser, ele é seu.
Realmente a proposta era irrecusável. Marquei para o dia seguinte para assinar a papelada do imóvel.
À noite, Luisa me telefonou.
- Desculpe-me, Rosana. Nem sei o que dizer.
- Nem eu. Ela acreditou no que você disse sobre mim?
- Acreditou… Eu acho. Rosana…
Ela ficou muda por alguns segundos. Senti uma sensação horrível. Ela vai terminar tudo, pensei.
- Pode falar Luisa! Estou preparada.
- Amanhã, na casa de Thereza Tinoco… Infelizmente…
- Ok! Já entendi.
- Me perdoa. Eu não esperava que ela viesse.
- Está tudo bem, Luisa. Eu nem poderia ir mesmo, amanhã vou assinar os documentos para a compra do apartamento.
- Aquele que vimos hoje?
- Sim. O corretor conseguiu um bom desconto e vou comprá-lo.
- Parabéns! Estou feliz por você.
- Obrigada.
- Clarice está no banho e deve sair a qualquer momento. Vou desligar, depois nos falamos, está bem?
- Está bem. Beijo.
Menti para Luisa quando disse que não poderia ir à casa de Thereza Tinoco. Eu poderia ir sim, e queria tanto!
Joguei-me na cama e, apesar de tentar conter minhas lágrimas, elas insistiram em correr pelo meu rosto.
O apartamento era meu! Depois de tudo acertado, fui ver o mar, ele sempre me acalmava e me dava esperanças.
Contratei uma arquiteta para deixar o apartamento mais moderno e prático. Gostei muito do projeto que ela me apresentou e as obras haviam começado, pois, eu queria me mudar o quanto antes.
Luisa havia voltado para São Paulo, junto com sua mulher. Duas semanas depois, ela voltou ao Rio e me procurou.
Assim que entrou no meu quarto do hotel, ela me abraçou, me dando um daqueles beijos que me deixava sem ar.
- Saudades de você, Rosana!
Ela foi me levando para a cama, tirando minha roupa e apertando meu corpo. Ai! Essa mulher me deixava louca! Suas mãos me arrepiavam, sua boca me fazia estremecer. Ah, que delícia minha Luisa!
- Quando vai se mudar para o apartamento?
- Talvez em 30 dias. Foi o que a arquiteta me disse.
- Consegui convencer Clarice a se mudar pra cá. Aproveitei uns dias de folga para procurar imóveis.
- Legal.
- Legal?! Não ficou feliz em saber que ficaremos perto uma da outra?
- Fiquei.
- Não senti entusiasmo algum. O que está acontecendo, Rosana?
- Nada.
Levantei-me da cama e fui para o chuveiro.
- O que há com você?
- Tenho que ir ao apartamento. Quer ir comigo?
- Não posso, Clarice está me esperando para almoçar.
- Está vendo? Clarice… Clarice… Clarice. Não pude ir com você para conhecer Thereza Tinoco, porque Clarice apareceu. Você sumiu por duas semanas e agora que quero te levar para ver o apartamento, você tem que almoçar com Clarice. Estou me cansando disso.
- Você sabia que seria assim quando aceitou ser minha amante.
- É. Eu sabia sim. Mas não pensei que eu estaria sempre em segundo plano. Segundo não! Terceiro! Primeiro, Clarice, depois sua carreira e quando você tem um “tempinho”, você lembra que eu existo. Aí, você vem, satisfaz seus desejos carnais e selvagens, e depois some de novo.
- E vai me dizer que você não gosta disso?
- Não, não gosto!
- Não gosta de ser beijada por mim, Rosana? Não gosta quando eu toco seu corpo e te deixo louca?
Ela entrou no chuveiro comigo, me colocou de costas pra ela, me encostando na parede. Suas mãos deslizando pelo meu corpo, e sua língua em meu pescoço, me fizeram sentir tontura.
- Diz que não gosta disso.
Eu não conseguia pensar com aquela voz sussurrando em meu ouvido. Para me enlouquecer ainda mais, ela me penetrou, enquanto apertava meus seios e mordia minha nuca.
- Você é deliciosa, Rosana! E também me deixa louca!
Gozamos diversas vezes, em diferentes posições. Sim! Eu gosto! E preciso! E te amo, Luisa!
Eu estava me trocando e ela na cama, me olhando.
- Você é tão linda!
- Você também é.
- Quer terminar?
- Não. Mas não pensei que seria tão difícil não ter você por inteira. Eu até me iludi, pensando que você deixaria Clarice para ficar comigo.
Ela saiu da cama e me abraçou.
- Sinto tanto, Rosana!
Ficamos abraçadas, e eu, pensando em como eu poderia ser feliz com ela e… Sem ela!
Luisa foi embora e eu, desolada, para o apartamento.

PARTE  IV
Quando cheguei ao apartamento, a arquiteta estava lá.
- Rosana, eu tive que fazer umas modificações em seu quarto. Pela planta, a parte elétrica passa por aqui e se eu colocar sua cama nesta parede, terei que refazer tudo.
- Faça como achar melhor, confio em você.
- Opa! Que voz é essa? E este olhar tão triste?
- É impressão sua, eu estou bem.
- Está bem mesmo?
Comecei a chorar.
- Você tem razão! Eu estou péssima!
- Vem comigo.
Ela me levou para a cozinha.
- Não é legal você chorar na frente dos pedreiros. Sente-se! Trouxe uma garrafa de café, quer um?
- Quero.
Sentei-me em um banco duro e desconfortável.
- Desculpe pela acomodação, mas é só o que posso oferecer no momento. Além do meu café, que garanto, é muito bom!
Ela me fez sorrir.
- Ah! Assim está melhor!
O café realmente era muito gostoso.
- E então? Quer me contar sua história?
- Não vale a pena, Márcia, acredite.
- Toda história vale a pena.
- É que minha história é complicada demais para alguém entender.
- Tente! Além de arquiteta, sou uma boa ouvinte. Espera! Faremos melhor! Você gosta de comida japonesa?
- Gosto, mas…
- Ótimo! Vou te levar ao melhor restaurante da cidade, é por minha conta. Você janta comigo esta noite e me conta o que está te deixando com esse olhar tristonho.
- Jantar com você?
- É. Algum problema nisso?
- Não, nenhum problema, mas…
- Então está combinado! A que horas posso te pegar no hotel?
- Mas eu não disse que vou.
- Também não disse que não vai. E então? A que horas eu te pego?
Márcia me convenceu a ir jantar com ela. Eu precisava mesmo de outros ares.
Contei-lhe tudo, mas não mencionei o nome de Luisa.
- É garota! Sua história é realmente bem complicada.
- Eu disse que era!
- Eu não ia aceitar isso, de forma alguma. A pessoa para estar comigo, tem que estar inteira, não aceito migalhas.
- Não é tão simples assim. Eu a amo, não conseguiria viver sem ela.
- Também não está conseguindo viver com ela.
- É.
- Poderia te dizer várias coisas, mas só você pode mudar isso. Você precisa perceber que essa sua relação não vai além de alguns encontros sexuais. E pelo que entendi, essa mulher não pretende deixar a companheira. Nem mesmo por você.
- Estou ciente disso, mas o que eu posso fazer?
- Posso te dar uma sugestão, se me permitir.
- Fale.
- Você precisa de outra pessoa em sua vida. Um novo caso de amor.
Márcia sorriu, maliciosamente. Eu gargalhei.
- Não ria! Estou falando sério.
- Por acaso você já pensou em alguém para eu ter esse novo caso de amor?
- Obviamente!
- E eu posso saber de quem se trata?
- Você até pode parecer ingênua, mas sei que não é.
De repente, Márcia ficou séria.
- Você é uma mulher linda, Rosana. E muito atraente.
- Obrigada!
- Essa sua mulher misteriosa é uma completa idiota.
- Também acho.
Novamente ela sorriu. Márcia pediu saquê. Eu não me dava muito bem com bebidas alcoólicas, mas hoje eu precisava disso.
- Um brinde a você e a uma nova amizade que se inicia. “Kampai”! Significa um brinde, uma exaltação aos bons momentos. E este é um bom momento, não concorda comigo, Rosana?
- Concordo. Então… “Kampai”!
Comemos muito sushi, sashimi, tempurá, temaki… E bebemos saquê. Márcia tinha uma conversa agradável e era divertida.
- Boa noite.
Aquela voz. Eu conhecia muito bem.
- Não falei que era a sua professora?
- Lu… Lu… Luisa?
Que ridícula! Eu estava gaguejando!
- Oi, Rosana. – Disse Luisa, lançando um olhar enojado para Márcia.
- Eu sabia que era você. Luisa não acreditou. – Disse Clarice, com um sorriso simpático.
- É. Sou eu.
Depois de um silêncio perturbador, Márcia fez um convite ainda mais perturbador.
- Querem se sentar conosco?
Dei um chute na perna de Márcia, por debaixo da mesa.
- Se não for atrapalhar. – Respondeu Clarice.
- Na verdade, já estávamos de saída, não é Márcia?
- É sim. Mas enquanto estamos aqui, vocês podem se sentar. Aliás, meu nome é Márcia, muito prazer.
- O prazer é meu. Sou Clarice e esta é Luisa.
- Sei quem é ela. A nova “pop star” do momento. Parabéns! Seu sucesso é merecido.
- Obrigada.
- Sentem-se!
Droga! Márcia insistia. E elas se sentaram.
- Quando vai lançar o novo disco?
- Estamos trabalhando nele, ainda não há uma data prevista. Mas posso garantir que será em breve.
- Rosana, Luisa já lhe contou que vamos nos mudar para a cidade maravilhosa?
- Contou sim. Vocês vão gostar muito daqui.
- Vai ser uma mudança radical, mas tenho esperanças de que vou me acostumar.
Clarice era simpática, comunicativa, tinha um olhar franco, suave. Enquanto ela falava, eu fui ficando à vontade. O susto em ver Luisa havia passado. Márcia também parecia muito à vontade conversando com Clarice, era como se já se conhecessem há anos.
- Faz tempo que vocês estão namorando?
Ah não! Clarice pensa que Márcia e eu namoramos?
- Nós? Não somos namoradas. – Respondi rapidamente.
- Ainda não. – Completou Márcia, beijando minha mão.
Luisa lançou-me um olhar mortal.
- Márcia é arquiteta e está fazendo a reforma de meu apartamento.
- Não é só isso o que eu pretendo reformar, acredite!
O que ela está fazendo? Márcia estava querendo me provocar? Ou provocar Luisa? Será que ela tinha percebido?
- Bem, acho que precisamos ir agora. Vamos, Márcia?
- Se é isso o que você quer.
- Sim! É o que eu quero. Boa noite! Bom jantar!
- Boa noite, Rosana! Foi um prazer revê-la.
- Igualmente.
- Ah, já ia me esquecendo. Gostaria que me desse seu número de telefone, caso eu precise de seus serviços de arquiteta.
- Clarice, nós vamos comprar um apartamento novo, não há necessidade.
- Desculpe discordar de você Luisa, mas mesmo em um apartamento novo, meus serviços também podem ser necessários. Vamos supor que você queira tirar uma parede, ou acrescentar outra. Uma arquiteta irá te instruir se isso é viável ou não.
Luisa ficou visivelmente irritada, mas não disse nada.
Nos despedimos, e Márcia e eu saímos. Assim que entramos no carro, estourei.
- Por que fez aquilo?
- Aquilo o que?
- Falar aquelas coisas. Não vamos namorar.
- Não?
- Claro que não! O que você está pensando? Só porque me pagou um jantar e resolveu dar uma de boa samaritana, acha que tem o direito de falar o que quiser? Você não me conhece e eu… Do que você está rindo?
- Você é ainda mais linda quando fica irritada.
- Você está debochando de mim?
- Não, muito pelo contrário! Estou admirando você. É muito linda!
Talvez fosse desnecessária essa minha irritação. Afinal, ela não fez nada tão grave.
- Desculpe-me. Não sei por que fiz isso.
- Mas eu sei.
- Sabe?!
- Sei. A sua amante misteriosa é a cantora. Luisa.
Não sabia o que dizer, fiquei muda. Negar seria idiotice, e afirmar, precipitação. Talvez ela estivesse blefando.
- Fique tranquila, não vou anunciar isso na Internet, e não vou fornecer um furo para algum tabloide. Com uma condição.
Ai, meu Deus! Ela estava com um sorriso estranho, ameaçador.
- Qual?
- Que você aceite ir ao cinema amanhã e depois jantaremos novamente. Gosta de pizza?
Bom, a condição não era tão ruim assim.
- Gosto de pizza, mas engorda.
- Com esse corpo que você tem, não precisa se preocupar.
Ela reparou em meu corpo?!
- E então, Rosana? Aceita minha condição?
- Aceito. Mas desta vez eu pago.
- Combinado.
Ela me deixou no hotel e foi embora. Entrei, tomei um banho rápido e me deitei.
Sete horas da madrugada, acordo com o interfone tocando.
- Pois não?
- Bom dia! Há uma visita para a senhora.
- Visita? Quem é?
- Luisa.
Tão cedo! O que será que aconteceu?
- Pode mandar subir.
Lavei o rosto e escovei os dentes. Assim que abri a porta, Luisa começou a falar.
- Vai me explicar o que está acontecendo?
- Eu é que pergunto! Por que está aqui tão cedo? O que houve?
- Quero saber o que há entre você e a arquiteta.
- Ah! É isso!
Fui para o sofá e me sentei.
- E então? Estou esperando uma explicação.
- Não há nada entre mim e Márcia. Ela me convidou para jantar e eu, como não tinha nada para fazer, aceitei.
- E aquela conversa de namorar você? O que isso quer dizer?
- Nada. Ela falou brincando. Na verdade, ela quis te provocar.
- Me provocar por quê? Você contou a ela sobre nós?
- Contei sobre nós, mas não falei seu nome. Ela é esperta e percebeu. Claro! Depois dos olhares que você lançou pra ela e pra mim! Não sei como Clarice não percebeu também.
- Não quero que você saia com ela de novo.
- Ora! E por que não?
- Porque não.
- Tá bom! Ela me convidou para ir ao cinema e jantar com ela hoje. Se você ficar comigo esta noite, eu desmarco com ela.
- Pára com isso, Rosana. Você sabe que eu não posso.
- Então eu vou sair com ela.
- Não vai não!
Luisa me pegou pelo braço e me levou para a cama.
- Vou te mostrar porque você não vai querer outra mulher em sua vida.
Ai, aquelas mãos, aquela boca, aquela língua! Ah, eu vou desmaiar!
- Você é minha, Rosana! Só minha!
Luisa estava selvagem. Deliciosamente, selvagem! Eu, tão submissa, me entreguei àquela paixão alucinante, perdidamente imersa num prazer sem igual!

PARTE V
Eu havia constatado um fato: Luisa me dominava.
- Por que você faz isso comigo, Luisa?
- Porque você gosta, e eu gosto.
- O que você sente por mim? Além de atração.
- Eu sou apaixonada por você. Pelo seu corpo, pelo seu olhar, pelo seu sorriso, por tudo o que você é e o que você faz por mim.
- E Clarice?
- Eu a amo. Sei que é difícil acreditar, mas eu amo vocês duas.
- Eu queria ter você por inteiro. Você quer que eu seja só sua, mas você não é só minha.
- Eu sei. Desculpe-me pelo que falei, eu não tenho o direito de impedir você de tentar ser feliz com outra.
- Márcia e eu não temos nada. Ontem eu estava triste, chateada porque você não pôde ficar comigo, não pôde ver o apartamento. Márcia percebeu e eu não me contive, e chorei. Aí, ela me convidou para jantar e eu aceitei, não queria ficar mais uma noite sozinha, pensando em você, sentindo a sua falta.
- Estou te fazendo sofrer, te magoando, e era isso o que eu mais temia.
Levantei-me e pedi o café da manhã.
- Estou com fome. E quando estou com fome, eu não consigo pensar direito.
- O que você quer fazer, Rosana?
- Tomar meu café da manhã.
Luisa sorriu.
O café chegou. Comemos e ela perguntou novamente.
- Pronto! Você já tomou o seu café da manhã. Agora responda: o que você quer fazer?
- O que eu quero, não vai ser possível. E você? O que quer fazer, Luisa?
- Ficar com você.
- E com Clarice.
- Sim. E também quero que você não saia mais com a arquiteta. Eu senti ciúmes. Comecei a imaginar ela te beijando, te tocando, fazendo amor com você. Eu não sei se iria aguentar.
- É como me sinto quando imagino você com Clarice. Mas com uma diferença: Márcia não me tem e nunca terá. Luisa, eu não sei até quando poderemos viver esse caso, até quando vou suportar, mas de uma coisa eu tenho certeza: eu te amo!
Ela me abraçou carinhosamente. Eu sentia que ela não estava me enganando, sabia que seus sentimentos eram reais. E acho que podia entender seu conflito em amar duas mulheres.
Ela se despediu.
- Eu te ligo mais tarde. Hoje Clarice e eu vamos ver um apartamento. Tudo vai ficar mais fácil quando eu estiver morando aqui, você vai ver.
- Ou mais difícil.
Nós nos beijamos. Ela saiu e, quando eu estava fechando a porta, ela voltou.
- Se você quiser ir ao cinema e jantar com a arquiteta, tudo bem. Mas, por favor, não a deixe te tocar.
Eu sorri. Ela não precisava me pedir isso.
 À noite, Márcia foi me pegar no hotel. Quando desci, eu a vi em uma moto. Uau! Linda! Estilosa! Atraente!
- De moto?
- Tem medo?
- Não. Bom, na verdade, eu nunca andei de moto.
- Nunca?! Ah, mas isso é imperdoável! Sobe!
Ela me deu um capacete e subi na moto. Meu coração disparou. Tive a sensação de estar voando, e era muito bom!
Cinema, jantar e depois um passeio pela cidade maravilhosa. Não sei por que, mas a cidade vista da moto parecia ainda mais linda.
Quando chegamos à Lagoa Rodrigo de Freitas, ela parou.
- O que foi? Aconteceu alguma coisa?
- Não aconteceu nada. Quero te mostrar uma coisa.
Ela me levou até uma árvore, e me mostrou algo escrito nela. Eram duas letras.
- MR?
- Sim. “M” de Márcia, “R” de Rita de Cássia, minha ex-mulher.
- Ex?
- Sim, ela morreu há 2 anos.
- Sinto muito.
- Ela sofreu um acidente de carro. Estava dirigindo, voltando para casa, quando outro carro ultrapassou o sinal vermelho e bateu no carro dela. Ele estava bêbado e em alta velocidade. Ela ainda estava viva quando chegou ao hospital. Consegui falar com ela antes de… Bem, ela me disse o seguinte:
“ – Amor, nossas iniciais ficarão naquela árvore para sempre e o amor que sinto por você também será eterno. E por te amar tanto, quero que me prometa que será feliz. Vou te fazer um pedido: quando encontrar uma mulher que tenha a mesma inicial de meu nome, e se ela tiver um sorriso bonito e um olhar fraterno, fique com ela. Assim, você será feliz e me fará feliz.”
Eu não consegui conter as lágrimas. Era uma história tão triste, mas ao mesmo tempo, tão linda!
- Você é exatamente como Rita descreveu. “R” de Rosana, sorriso bonito e olhar fraterno. Talvez por isso eu tenha me apaixonado por você. Acredita em amor à primeira vista?
Eu estava emocionada e surpresa. Como eu não percebi?
- Márcia, eu… Eu não sei o que te dizer.
- Não precisa dizer nada. Eu só queria que soubesse.
Senti vontade de abraçá-la.
- Posso te dar um abraço?
- Deve! Eu vou gostar muito.
Eu continuava chorando. Fiquei imaginando o sofrimento de Márcia ao perder Rita de Cássia. Quanta tristeza ela deve ter sentido.
- Hei! Já pode parar de chorar, tá bom?
- Desculpe, mas essa história é tão triste! E linda também.
Márcia passou a mão em meu rosto, enxugando as lágrimas que teimavam em sair.
- Isso só prova o quanto você é sensível.
- Sou tão sensível, que choro até com propaganda de televisão.
Ela riu.
- Sério? Se eu soubesse que você era uma chorona, não teria te contado nada.
Subimos na moto e deixei que o vento batesse em meu rosto. Foi uma sensação fantástica, única!
- Está entregue!
- Obrigada! Foi uma noite surpreendente.
- E terão outras, espero.
- Sim. Creio que sim. Boa noite, Márcia.
- Boa noite, Rosana.
Dei-lhe um beijo no rosto e senti a respiração dela ofegante. Nossos olhos se encontraram e ficamos alguns instantes nos olhando. Ela sorriu.
- Se continuar assim, tão perto de mim, não vou resistir e vou te beijar.
Rapidamente eu me afastei. Ela gargalhou.
- Nossa! Quanto medo!
- Não é medo, é precaução.
- Ah, certo. Precaução. Boa noite, adorável mulher!
- Boa noite, Márcia. Dirija com cuidado.
Fiquei pensando na triste história de Márcia e na declaração de amor que ela me fez. Peguei o telefone e liguei pra ela.
- A resposta é sim.
- Sim é sempre bem vindo, mas… Para qual pergunta?
- Se eu acredito em amor à primeira vista.
- Isso é muito bom.
- Boa noite.
- Boa noite.
Pela primeira vez, em todos esses meses, dormi sem pensar em Luisa.

PARTE VI

Meu apartamento estava pronto e lindo! Márcia tinha feito um belíssimo trabalho. Luisa e Clarice compraram um apartamento na Barra da Tijuca e já estavam morando nele.
Levei Luisa para ver como meu apartamento havia ficado depois da reforma.
- Excelente trabalho o da arquiteta. Ficou muito bonito mesmo, Rosana.
Ela me beijou.
- Precisamos estreá-lo.
Fizemos amor e ela me contou que seu CD seria lançado em breve, talvez em alguns dias.
- Quero que vá ao lançamento.
- Claro que eu vou!
- Como a arquiteta tem se comportado com você?
- Muito bem! Não tem me deixado sentir solidão.
- O que vocês tem feito?
- Nada demais. Jantares, cinema, teatro, música… Essas coisas.
- Só isso?
- Só isso, Luisa.
- Ótimo. Preciso ir. Clarice está me esperando para comprar alguns objetos de decoração. Marquei com ela no shopping.
Assim que ela saiu, telefonei para Janaina.
- Sinto tanto a sua falta, sabia? Tenho tantas coisas para te contar.
Contei a ela sobre mim e Luisa, sobre Márcia, Clarice, sobre meu apartamento.
- Tire uns dias de folga e vem ficar aqui comigo. Preciso de você e estou com saudades.
Janaina aceitou minha proposta e, dois dias depois, ela estava no Rio.
- Menina! Esse apartamento é um luxo!
Janaina e eu fomos à praia, almoçamos fora, conversamos. Nossa! Ela me fazia tanta falta!
- E então? Essa tal de Clarice é perua, nojenta?
- Não! Pelo contrário! É elegante, gentil, educada, uma dama!
- Isso é mal, minha amiga. Qualidades demais. E a sua arquiteta?
- Márcia é um doce de pessoa.
- Um doce de pessoa?!  Mas e as outras qualidades? Quero saber se ela é bonita, atraente, sensual, gostosa, se beija bem…
- Ficou louca? Márcia e eu não nos beijamos, somos amigas.
- Ah, pára! Ela te faz uma declaração de amor e você diz que são amigas? Duvido que você não sinta nenhuma atração por ela.
- Digamos que ela é uma mulher interessante e…
Meu celular tocou. Era Márcia.
- Oi! O que?! Sim. Márcia? Alô?
Ela havia desligado o telefone.
- O que foi amiga? Algum problema?
- Estranho! Ela perguntou se eu estava na praia com uma linda morena…
- De cabelos negros e cacheados e com um biquíni de parar o trânsito. Como vai, Janaina? Muito prazer, Márcia.
- Uau! O prazer é infinitamente meu!
Como sempre, Márcia havia me surpreendido.
- O que você está fazendo aqui? Não deveria estar trabalhando?
- Muito obrigada por ficar feliz em me ver.
- Não é isso, você sabe.
- Tirei a tarde de folga e, como eu sabia que estaria com sua amiga na praia, resolvi te procurar e te achei.
- Mas você pretende ficar aqui com essa roupa?
- Não. Precisava falar com você e não poderia ser por telefone.
- Aconteceu algum problema?
- Problema nenhum. Eu acho.
- Diz logo!
- Bom, é que você e eu fomos convidadas para uma festa hoje à noite.
- E que mal há nisso?
- Para mim, nenhum. Quanto a você, eu não sei.
- Márcia, você pode parar de rodeios? Vai direto ao assunto, pelo amor de Deus.
- Estive com Clarice e Luisa de manhã. Você sabe que fiz um trabalho para elas no novo apartamento.
- Eu sei. E daí?
- Clarice marcou um jantar para esta noite e nos convidou. Será no apartamento delas. Clarice faz questão de nossa presença e eu quero saber se você quer ir.
- Claro que ela quer! Não quer Rosana?
- Eu não sei. É estranho, não é?
- Estranho é você aceitar ser amante de uma mulher que jamais ficará com você. Isso sim é estranho.
- Por favor, Janaina, não comece.
- E então? Posso confirmar nossa presença ou não?
- E Janaina?
- Falei com Clarice que você estava hospedando uma amiga, ela disse que você pode levá-la.
- Oba! Vamos, com certeza! Não vamos?
Eu não sabia o que fazer. Queria muito ir, mas não sabia se deveria ir.
- Rosana, se você não quiser ir, tudo bem. Faremos o que havíamos combinado, jantar fora e levar sua amiga para conhecer a noite carioca.
- Ah, não! Terei outras noites cariocas para conhecer, hoje quero ir à festa. Vamos, Rosana, por favor!
- Tudo bem. Vamos.
- Beijos, meninas! Até mais tarde. Ah! O traje é um vestido bem curto.
Ela saiu dando um sorriso lindo.
- Gamei! Rosana, se você não pegar essa mulher, pego eu. Estou avisando.
Que louca a minha amiga!
Às vinte horas em ponto, Márcia estava em frente ao meu edifício.
- Nossa! Você está deslumbrante!
Ela me deixava sem graça, às vezes.
Chegamos a um condomínio de luxo na Barra da Tijuca. Márcia mostrou os convites para o segurança e ele nos deixou entrar. Ela tocou a campainha de um dos apartamentos.
- Ah! Que bom que vieram! Como vai, Rosana? Estou muito feliz que tenha vindo.
Ela me abraçou carinhosamente.
- Você deve ser Janaina. Muito prazer! Entrem, fiquem à vontade.
Clarice nos levou para uma sala grande, havia muita gente lá. Quando Luisa nos viu, veio nos cumprimentar.
- Fico feliz que tenha vindo Rosana.
Luisa me deu um beijo no rosto e eu me arrepiei. Ela cumprimentou Janaina e Márcia.
- Venham comigo, vou lhes servir uma bebida.
Fiquei olhando o apartamento. Era lindo, confortável, de muito gosto. Olhei para um canto da sala e vi uma mulher.
- Clarice, aquela mulher que está perto do piano é…
- Thereza Tinoco.
- Não acredito! É ela mesma?
- Vamos até lá, vou apresentá-la a vocês.
Chegamos perto dela. Eu estava emocionada! Clarice nos apresentou.
- É um grande prazer conhecê-la, Thereza! Ouço suas músicas desde que eu era criança, minha tia tinha os seus discos, aliás, tem até hoje.
Ela me abraçou!
- Obrigada, querida! É um prazer conhecê-la também.
Clarice apresentou Janaina e, quando foi apresentar Márcia, elas se abraçaram.
- Como vai, minha arquiteta predileta?
- Muito bem, Thereza! E você?
- Vocês se conhecem?!
- Sim, Rosana! Fiz um trabalho no apartamento de Thereza há algum tempo.
- Por sinal, um belo trabalho!
- Por que você nunca me contou que a conhecia?
- Você nunca me perguntou!
Thereza Tinoco nasceu no Rio de Janeiro-RJ. Cantora, compositora e advogada. Começou a tocar violão e a cantar ainda na adolescência. Estudou piano com Flávio Maia. Como compositora, teve seu primeiro registro fonográfico na voz de Simone, que gravou sua canção “Desgosto”. Em 1978, através do produtor de discos Aderbal Guimarães, foi contratada pela gravadora RGE-Fermata, lançando, nesse mesmo ano, um compacto duplo. Em 1979, gravou seu primeiro LP “Sempre Me Acontece”, destacando-se composições próprias como “Herói animal” (com Nilson Chaves) e “Desgosto”, além de canções de outros autores, como “Sábado em Copacabana” (Dorival Caymmi) e “Mentira de amor” (Lourival Faissal e Gustavo de Carvalho), entre outras. Em 1981, lançou um compacto simples contendo a canção “O viajante”. Gravou, em 1985, o LP “Batom grená”, interpretando canções de sua autoria, como a faixa-título e “O lugar onde moro”, além de músicas de outros compositores, como “Quem há de dizer” (Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves) e “Uma mujer” (Paul Miraski e C. Olivari), entre outras. Em 1992, lançou o CD “Ave rara”, exclusivamente autoral. O disco contou com a participação de Ney Matogrosso na faixa-título, composição de sua parceria com Rosinha de Valença. Sua canção “O viajante” foi incluída na trilha sonora da novela “Baila comigo” da TV Globo. Em 2000, Thereza Tinoco lançou o CD “Algo contigo”, contendo composições próprias, como “Retalhos” e “Duas moças”, além de canções de outros autores, como “Meu mundo caiu” (Maysa), “Molambo” (Augusto Mesquita e Jayme Florence), “Que mal eu te quis” (Danilo Caymmi e Carlos Colla) e “Sob um cobertor” (Antonio Adolfo), entre outras. O disco contou com arranjos musicais de Ed Lincoln, além da participação de Ney Matogrosso e Paulinho Trompete.
Thereza Tinoco faz parte da Ala de Compositores do Salgueiro. Dentre os intérpretes de suas canções, podemos destacar cantores como Simone, Marlene, Marisa Gata Mansa, Claudette Soares, Lucinha Araújo e Ney Matogrosso, entre outros.
No dia 7 de janeiro de 2011, estreou a peça “Entre Mechas e Reflexos”, comédia da Jornalista Maria Fernanda Gurgel, com música-tema de Thereza Tinoco.
(fonte: www.google.com)
Thereza começou a tocar piano. Ela tocava e cantava divinamente! Luisa também cantou, enquanto Thereza tocava. A festa estava muito agradável, e eu estava deslumbrada!
Em certo momento, olhei para Márcia. Ela me olhava com um olhar carinhoso. Eu sorri pra ela e ela retribuiu.
Precisava ir ao banheiro e perguntei à Clarice onde era. Ela me levou até lá.
- Sabe o caminho de volta?
- Sei sim, obrigada.
Quando eu saí do banheiro, Luisa estava me esperando e me levou para uma sala, era um escritório.
- Você ficou louca?
- Sim! Louca para te dar um beijo.
Ela me beijou, e mesmo com medo de alguém nos pegar, eu permiti.
- Você está deslumbrante hoje!
Eu lembrei que Márcia havia dito o mesmo e sorri.
- Vi você e a arquiteta trocando olhares apaixonados.
- Trocamos olhares sim, mas não foram apaixonados.
- Talvez não da sua parte. Eu sinto ciúmes de você com ela, não consigo controlar.
- Vamos sair daqui, Luisa. Clarice pode aparecer.
- Vamos sim, mas antes…
Ela me beijou novamente. Ai, Luisa me deixava tonta. Alguém entrou na sala.
- Clarice já vai servir o jantar. Melhor você vir comigo, Rosana, antes que você seja o jantar por aqui.
- Teus pais não te ensinaram a bater na porta antes de entrar? – Perguntou Luisa, irritada.
- Ensinaram e eu bati, porém, vocês estavam muito ocupadas para ouvir, não é mesmo?
Márcia se aproximou de Luisa.
- Sinceramente, eu gostaria de entender você, Luisa. Tem uma mulher linda, apaixonada, fiel, dedicada a você, mudou toda a sua vida para te acompanhar. Por que faz isso com ela?
- Isso não é da sua conta.
- Tem razão, não é mesmo. Mas como eu disse, eu só queria entender.
- Entender? Não quer que eu acredite que você está preocupada com Clarice, quer?
- Você não a merece.
- E quem você pensa que é para se meter em minha vida? Você está com ciúmes de Rosana, esta é a verdade! Vai negar?
Não gostei do olhar de Márcia para Luisa e me intrometi.
- Por favor, vamos sair daqui antes que alguém chegue.
Luisa me beijou na boca, e eu tinha certeza que era para provocar Márcia. Com um sorriso sarcástico, Luisa continuou com as provocações.
- É disso que você não gosta, arquiteta! Pois fique sabendo, que não vou abrir mão de Rosana, ela é minha.
- Isso é o que veremos.
Elas ficaram se encarando. Ah, meu Deus! Nunca pensei em passar por isso.
- Vamos, por favor! – Implorei.
Finalmente, Márcia me ouviu. Fomos para a sala de jantar, as pessoas já haviam se sentado. Assim que nos sentamos, Márcia falou:
- Você também não tem um pingo de vergonha na cara. Como pode se sujeitar a um papel tão baixo?
Nossa! Márcia nunca falou assim comigo. O pior é que ela está certa.
Jantamos. A comida estava deliciosa e os convidados de Clarice eram simpáticos. Com exceção de Luisa e Márcia que trocavam olhares nada simpáticos.
Após o jantar, foram servidos café e licor. Depois todos voltaram para a sala onde ficava o piano e Thereza voltou a tocar.
Era mais de meia noite quando fomos embora.
- Obrigada por terem vindo.
- Obrigada por nos convidar. Foi uma noite maravilhosa!
Clarice era um doce de pessoa.
- Rosana, eu ainda não tenho o número de seu telefone, se importaria em me dar?
- Agora mesmo! Anote.
Luisa me beijou no canto da boca. Como ela era atrevida!
No carro, só Janaina falava.
- Nossa! Que noite! Pessoas bonitas, gente famosa, comida boa, bebida à vontade…
Quando chegamos ao meu edifício, fui me despedir de Márcia, mas ela pediu que eu esperasse.
- Fique. Quero falar com você.
- Ok, já entendi! Assunto particular. Boa noite, Márcia, obrigada por tudo.
Janaina saiu do carro.
- Muito bem! Sou toda ouvidos.
- Até quando você vai continuar se enganando? Não percebe que Luisa não vai deixar Clarice para ficar com você? Não vê que você é apenas uma diversão pra ela?
Ela fez uma pausa e respirou fundo.
- Luisa tem razão. Quando vi vocês se beijando, senti ciúmes, raiva, e não gosto de sentir isso. Rosana, você não tem o mínimo de respeito por si mesma. Desceu a um nível que, infelizmente, não consigo te alcançar.
- E isso quer dizer o que?
- Que eu não quero mais te ver. Não enquanto estiver saindo com ela.
- Por quê? Somos amigas, gosto de sua companhia.
- Eu quero mais que isso. Desde que eu te vi pela primeira vez, eu senti um desejo enorme de te beijar, e hoje, quando te vi assim, linda e sensual, eu pensei: hoje ela não me escapa. Mas escapou. E quando te vi com Luisa, eu fiquei enojada.
Enojada?!
- Por favor, Márcia, não faça isso! Pensei que me compreendesse.
- Eu compreendo! É você quem não está compreendendo toda essa situação. Luisa não vai ficar com você e eu, não quero mais ver vocês duas juntas. Pode compreender isso?
O que eu ia dizer? Será que eu deveria implorar para que ela não me deixasse sozinha nisso?
- Por favor, Rosana, sai do carro.
- Márcia…
- Saia.
Abri a porta do carro e saí. Fiquei olhando até que o carro virasse a esquina.
Quando entrei no apartamento, Janaina estava me esperando.
- E aí? Ela te beijou?
Janaina não fazia ideia do que tinha acontecido no apartamento de Luisa.
- Fala amiga! Vocês se beijaram? Opa! O que houve?
Finalmente, ela havia percebido que eu estava chorando.
- Eu fiz tudo errado, Jana. Márcia está sentindo nojo de mim e não quer mais me ver.
- Como é? Por quê?
Contei-lhe tudo.
- Que mancada, minha amiga! Na casa da mulher?
- Fiquei sem ação. Quando ela me beija e me toca, não consigo pensar.
- Não sei se te dou os parabéns pela coragem, ou se te dou uma bofetada pela burrice. Caramba, Rosana! Márcia é louca por você, e deve estar sofrendo.
- Eu sei. Não queria isso. Por que ela teve que entrar naquela sala? Que droga!
- Agora não adianta chorar pelo leite derramado. Vem comigo, vou preparar um chá pra você.
Tomei o chá, banho e me deitei. Não conseguia dormir, pensando em tudo o que Márcia havia me dito e cheguei a uma única conclusão: eu mereci.

PARTE VII
Acordei com uma enorme dor de cabeça. Não havia dormido bem e as palavras de Márcia estavam martelando em minha cabeça.
- Bom dia, Rosana! Dormiu bem?
- Bom dia. Não. Estou péssima, minha cabeça parece que vai explodir.
Janaina havia preparado a mesa do café da manhã, mas eu estava sem fome. Tomei um analgésico e sentei à mesa, apenas para fazer companhia a ela.
- Amiga, meu chefe ligou, preciso voltar para Brasília.
- Quando?
- Amanhã. Já comprei a passagem.
- Ah não, Jana! Não pode me deixar sozinha agora.
- Vou tentar voltar o mais rápido possível, prometo. Quero te falar uma coisa.
- Fale!
- Você tem que resolver a sua vida e tem duas opções. A primeira, é que você tem que intimar Luisa a deixar Clarice e ficar com você.
- E a segunda?
- Deixar Luisa e ficar com Márcia.
- Parece tão fácil.
- Não é fácil, mas é necessário. Estou vendo como você está infeliz. Vai ficar assim até quando? Até Luisa enjoar de você e arranjar outra amante?
- Ela não vai fazer isso!
- Quem te garante? Você sabe muito bem que você não é a primeira mulher com quem ela trai a esposa.
- Comigo é diferente. Ela nunca saiu mais de uma vez com as outras, estamos juntas há meses.
- Pare de se iludir, minha amiga! Não sei o que a prende à Clarice, mas ela nunca vai deixá-la, acredite!
- Chega! Não basta tudo o que eu ouvi de Márcia? Não quero ouvir mais nada!
- Estou falando para o seu bem, me preocupo com você.
Saí da sala e fui para o meu quarto. Ela me seguiu.
- Ah, minha amiga, me desculpe. Não gosto de te ver sofrendo.
- Você e Márcia não entendem. Eu amo Luisa e não quero perdê-la.
- Será que isso é amor mesmo? Um amor inseguro, que te faz sofrer e que talvez nem seja correspondido? Eu só quero te ver feliz, só isso. Faça como achar melhor, eu vou te apoiar sempre.
Janaina me abraçou e fiquei aconchegada naquele abraço, que eu precisava tanto.
- Rosana…
- Sim?
- Eu preciso te dizer…
Ela estava me olhando de um modo diferente, e eu não estava entendendo aquele olhar.
- Se for sobre Luisa…
- Não é sobre Luisa, é…
- É o que?
Janaina passou a mão em meu rosto.
- Eu…
De repente, ela se levantou.
- Podemos ir à praia hoje? Quero me despedir do mar, não sei quando vou vê-lo de novo.
- Podemos ir sim. Minha dor já passou, vou comer alguma coisa e sairemos.
A praia estava perfeita! Poucas pessoas, um sol maravilhoso e o mar transparente. Almoçamos em um restaurante em frente à praia e depois voltamos. Entrei no mar e, quando estava voltando, parada à minha frente, estava Márcia, com uma bola na mão.
- Márcia? Oi! Que bom te ver!
Ela não disse nada, não sorriu e foi para perto de um grupo de mulheres que estava jogando vôlei.
- Você viu aquilo? Márcia nem me cumprimentou.
- O que você esperava? Ela avisou que não queria mais te ver.
- Ela poderia ter me dito pelo menos um oi.
- Pra você ela não disse, mas para aquela ali… A conversa parece estar animada.
Olhei em direção à Márcia e vi uma loira, com um corpo escultural, sorrindo e se oferecendo para Márcia.
- Essas mulheres não se valorizam mesmo! Olha isso! Elas estão quase se acasalando! Que absurdo!
- Tsc tsc! Detectando um sinal de ciúmes vindo daí!
- Não estou com ciúmes, é apenas uma observação em relação às garotinhas de hoje em dia. Umas abusadas!
- Sei.
Tentei não ficar olhando Márcia com a loira, mas meus olhos tinham vida própria e não queriam me obedecer. Será que Janaina tinha razão? Estou sentindo ciúmes de Márcia? Não! Só estou chateada por ela não querer falar comigo. Só isso!
- Vou lá cumprimentar Márcia, já volto.
Márcia deu um abraço gostoso em Janaina. Aquele abraço que ela sempre me dava, carinhoso e aconchegante.
Elas ficaram conversando durante algum tempo e Janaina voltou.
- E aí? Falaram sobre o que?
- Sobre mim. Contei a ela que vou embora amanhã e ela pediu para que eu ligasse quando eu voltar, para marcamos um jantar e um encontro na praia.
- Hmmm. E o que mais?
- Ela me convidou para jogar vôlei, mas falei que estou enferrujada. Quando eu voltar eu jogo com ela.
- Só isso?
- Só. Não falamos de você, se é isso o que quer saber.
- Nem pensei nisso, tá?
- Tá.
Janaina saiu rindo e foi dar um mergulho. Quando ela voltou, fomos embora.
Tomamos banho, descansamos um pouco e saímos para beber umas cervejas. Conhecemos umas garotas no bar e ficamos juntas à mesa.
- Fale um pouco de você, Janaina.
- O que quer saber, criança?
- Tudo! Se você tem namorada, se é casada, se está apaixonada…
- Namorada não, casada não, apaixonada talvez.
- Fale sobre ela. Sobre essa mulher por quem você talvez esteja apaixonada.
- Ela é uma mulher linda, por dentro e por fora. Tem um sorriso encantador, um andar sensual, uma boca atraente e o cheiro dela… Nossa! É excitante! Quando estou perto dela, a minha vontade é apertá-la, beijá-la, tocar seu corpo inteiro e fazê-la desmaiar de tanto prazer.
Nunca tinha ouvido Janaina falar assim de mulher alguma.
- Uau! E ainda diz que talvez esteja apaixonada? Tenho inveja dessa mulher.
- Não tenha. Na verdade, ela nem sabe que eu existo.
- Que pena! Um desperdício. Adoraria ouvir alguém se referindo a mim dessa maneira.
- Eu também, criança. Eu também. Mas vamos beber que a noite é como você: uma criança!
Depois de muitas cervejas, alguns petiscos e de muita conversa, voltamos para o meu apartamento. Levei Janaina para tomar banho, porque ela estava totalmente embriagada.
- Nunca tinha bebido tanto em toda a minha vida.
- Percebi. Vou cuidar de você, Jana.
Coloquei Janaina sentada em um banco que costumo deixar dentro do boxe, e  a deixei embaixo do chuveiro.
- Essa água está boa. Tire a roupa e vem tomar banho comigo.
- Não, Jana. Você precisa melhorar, amanhã pega o avião muito cedo.
Ela se debruçou em mim, acho que tentando não cair do banco. De repente, senti suas mãos passando por minhas pernas.
- Suas pernas são tão macias!
- Você está bêbada!
- Estou! Mesmo assim, suas pernas são gostosas.
As mãos dela foram subindo, subindo e…
- Pare com isso, Janaina! Ficou louca?
- Louca não, eu estou bêbada.
- É. Eu sei.
Desliguei o chuveiro, a enrolei na toalha e a levei para a cama.
- Vem deitar comigo, me fazer um carinho até eu dormir. Vem, Rosana!
- Você vai dormir rápido, não se preocupe. Se precisar de mim, é só me chamar.
- Eu preciso de você agora.
- O que você precisa é dormir. Quer se cobrir?
- Quero.
Quando a cobri com o lençol, ela me puxou.
- Quero te beijar, estou com tesão.
Não consegui controlar o riso.
- Jana, você está uma comédia. Dorme minha amiga.
Ela se virou de lado e dormiu rapidamente. Que alívio!
Tomei banho e fui comer alguma coisa. Liguei a TV enquanto comia, mas logo desliguei e fui para a cama. Fiquei pensando no que Janaina havia dito. Será que a mulher por quem ela disse estar talvez apaixonada, sou eu? Janaina é a minha melhor amiga. Espero que não.
No dia seguinte, levei Janaina ao aeroporto.
- Amiga, me desculpe por ontem, eu bebi demais. Esquece tá?
- Já esqueci Jana. Por favor, volte logo!
- Vou tentar. Obrigada por tudo!
- Obrigada a você! Boa viagem!
Voltei para casa. Estou sozinha novamente. Sem Janaina, sem Márcia, sem Luisa. Troquei de roupa e fui caminhar no calçadão. Parei em um quiosque e tomei água de coco. Meu telefone tocou.
- Alô! Oi! Estou bem obrigada, e você? Não, Janaina não está comigo, ela viajou hoje de manhã. Nenhum compromisso, por quê? Sim. Está certo. Obrigada pelo convite.
Era Clarice me convidando para um lanche. Fui para casa tomar banho e me arrumar. No horário marcado, eu estava lá.
- Fico muito feliz que tenha vindo Rosana.
Entramos e nos sentamos na varanda.
- Quer que sirva o lanche agora?
- Como quiser.
Clarice chamou uma senhora e pediu para que o lanche fosse servido.
- Quer dizer então, que estamos na mesma situação?
Mesma situação?! O que ela queria dizer com isso?
- Você e eu fomos abandonadas. Sua amiga voltou para Brasília e Luisa viajou a São Paulo para acertar um show. Que triste isso!
Ufa! É isso!
- Sim, muito triste.
- Mas pelo menos você tem Márcia. Ela é um amor de pessoa!
Nem Márcia eu tenho mais.
- Sabe Rosana, estou me sentindo muito sozinha. Em São Paulo, mesmo com os compromissos de Luisa, eu tinha a minha família e meus amigos. Aqui, não conheço ninguém, além de você e de Márcia.
- Eu fiquei muito tempo afastada do Rio, morava em Brasília também. Perdi todos os contatos que eu tinha aqui. Como você disse, estamos na mesma situação.
- Foi por isso que te convidei. Queria uma companhia e precisava conversar com você a sós.
- A sós?
- Sim. Não queria Luisa por perto. Eu sei de tudo, Rosana.
- De tudo? De tudo o que?
- Do caso entre você e minha mulher.
- Clarice…
- Por favor, não tente negar. Sei como e onde começou. Só não sei como vai terminar.
E agora?
- Certo. E o que pretende fazer?
- Eu? Nada! E você?
- Clarice, eu sinto muito por você, mas… Eu amo Luisa.
Ela começou a chorar.
- Sempre soube dos casos de Luisa com outras mulheres. Nossa! Quantas mulheres passaram pela vida dela! Ela pensa que eu só descobri uma. Luisa nunca levou ninguém a sério, mas você…
Ela chorava muito, senti pena dela.
- Você deve estar me odiando.
- Não. Acredite, eu não a odeio, até gosto de você… Rosana venha comigo.
Fui com Clarice até seu quarto. Ela pegou uma caixa dentro de um armário e me mostrou fotos minhas com Luisa.
- Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro. Você é muito fotogênica Rosana. Muito linda também. Entendo porque Luisa se apaixonou por você.
Isso era constrangedor.
- Luisa não é uma má pessoa, ela só não consegue ser fiel.
Ela chorou ainda mais. Num impulso, eu a abracei.
- Sinto tanto, Clarice!
Ela me olhou nos olhos profundamente, e eu pude ver como Clarice era bonita.
- Perdoe-me!
- Não há o que perdoar. Você não tem culpa por amar. Ninguém tem.
Ela sorriu. Um sorriso meigo e triste. Clarice passou as mãos em meus cabelos e eu em seu rosto, enxugando suas lágrimas.
- Você é tão linda, Rosana!
- Você também é Clarice. Muito!
Fez-se um silêncio perturbador. Estar ali, tão perto daquela mulher, me fez ter sensações estranhas. Fui tomada por uma insensatez e a beijei. Fiquei esperando uma reação, como uma bofetada, ou um empurrão, mas nada aconteceu. Apenas… O beijo.
Nossos lábios ficaram colados e nossos corpos se aninharam, pedindo algo mais que um simples beijo. Eu estava eufórica, excitada. Como poderia desejar esta mulher? Como, eu não sei. Mas desejava.
Antes de acontecer o pior, ou o melhor, parei de beijá-la.
- O que foi isso? – Perguntei encabulada.
- Eu não sei, mas foi bom. Não foi?
- Foi. Muito bom. Melhor eu ir embora.
- É. Melhor você ir.
Levantamos juntas e ficamos paradas, uma frente à outra. Não havia percebido que tínhamos a mesma altura.
- Então? Vamos?
- Claro!
Ela saiu na frente e fiquei observando suas pernas. Belas pernas. Ah, eu estou ficando maluca mesmo.
Ela abriu a porta para eu sair.
- Decidi que vou terminar tudo com Luisa. Não quero mais que você seja magoada.
- Obrigada. Mas não creio que isso seja possível.
- Pelo menos da minha parte, eu garanto que será.
Ela deu um sorriso lindo.
- Obrigada por aceitar meu convite. Espero poder reencontrá-la em outras circunstâncias.
- Eu também.
Pensei em beijá-la. No rosto, claro! Mas achei melhor não fazer isso e saí.
Durante a volta para casa, só me lembrava do beijo que dei em Clarice. Ela correspondeu! Foi um beijo delicioso. Ai, que loucura é essa?
Resolvi dormir mais cedo e esquecer aquela tarde inusitada.
- Ah, Rosana! Isso! Ai, que gostoso! Assim! Mais… Mais… Mais!
Acordei suando, ofegante, excitada. Que sonho! Eu estava fazendo amor com… Clarice?!
Levantei, tomei uma água gelada e fui tomar banho. Precisava muito de um banho. Tentei relaxar, mas não conseguia parar de me lembrar do sonho. Não resisti e me toquei. Imaginei-me tocando o corpo de Clarice, sugando seus seios… Ah! E aquelas pernas! Eu estava extremamente excitada e molhada.
Minhas mãos percorreram meu corpo. Tocava meus seios, minhas coxas, minhas nádegas e tentava pensar em Luisa, de como ela me tocava gostoso. Mas eu só pensava nela… Clarice!

PARTE  VIII
Era cedo e fui andar pela praia. Acordei confusa e tentando encontrar uma explicação plausível para tudo o que estava acontecendo, mas nada fazia sentido. Pensei em uma coisa terrível. Seria possível que Clarice estivesse fazendo algum tipo de jogo, querendo me sensibilizar com a sua dor, me seduzir para que eu deixasse Luisa só pra ela? Ela seria capaz disso? Isso não combina com ela, a não ser que ela seja uma grande atriz.
Gostaria de vê-la novamente. Vou telefonar. Não. Não farei isso, antes de conversar com Luisa. Queria tanto que ela estivesse aqui!
Passei o dia pensando em Clarice, no beijo, no sonho. Apesar de saber que estava errado, eu me sentia feliz ao pensar nela. Mas que droga, Rosana! Como você pode ser tão vulnerável? Luisa, Márcia e agora Clarice. Melhor não pensar em nada, em ninguém.
No dia seguinte, recebi uma ligação de Luisa. Marcamos encontro em meu apartamento.
- Que saudades de você!
Ela foi entrando e me beijando e me levando para a cama…
- Espere! Calma! Precisamos conversar.
- Agora não! Estou precisando de outra coisa.
Ela parecia não respeitar os meus desejos. Eu gritei.
- Mas que droga, Luisa! Quero falar e você vai ter que me escutar.
Ela me olhou surpresa. Eu me sentei.
- O que há com você?
- É sobre isso que precisamos conversar. O que há comigo.
- Estou sentindo algo no ar. Por acaso a arquiteta tem alguma coisa haver com isso?
- Não. Você tem.
Ela se sentou ao meu lado.
- Ok! Pode começar.
- Quero que venha morar comigo.
- O que?!
- Quero que você deixe Clarice e venha morar comigo.
- Você bebeu? Cheirou cola? Tomou detergente?
- Pare de ser debochada. Estou falando sério.
- Você não pode estar falando sério.
- E por que não? Estou cansada dessa situação. Não quero mais ser amante, quero ser sua mulher. Às vezes, me sinto uma criminosa. Só nos encontramos às escondidas, não podemos ser vistas juntas em público, não posso te beijar na frente de ninguém… Eu cansei Luisa! Não quero mais isso pra mim.
- Eu nunca te prometi nada.
Levantei furiosa.
- Não me venha com essas frases prontas. Ou você deixa Clarice e me assume, ou…
- Ou?
- Ou acabamos por aqui.
Ela se levantou e veio em minha direção. Ela vai me encurralar na parede e me beijar e me tocar e…
- Não é só isso. O que aconteceu na minha ausência?
- Nada.
Estou quase na parede.
- Aconteceu sim e você vai me contar.
- Não aconteceu nada! Pare de andar, fique onde está.
Ela sorriu e não me obedeceu.
- Mandei você parar.
- Não estou acreditando em nada do que está me dizendo. Você está fazendo o seu joguinho costumeiro, só para que eu a domine. Não é mesmo, Rosana?
- Não. Nunca fiz joguinhos com você e nem com ninguém. Pare de andar, por favor.
Ela parou. Mas eu já estava grudada na parede.
- Você transou com a arquiteta?
- O que?! Não!
- Vocês se beijaram.
- Não. Não vejo Márcia desde aquela noite em seu apartamento.
- Mentira.
- Verdade. Ela não quis mais me ver por sua causa.
- Por minha causa?
Luisa gargalhou.
- Isso é maravilhoso! Gosto muito de ser respeitada.
- Não foi por respeito a você, mas a ela mesma. Ela disse que só me veria de novo, depois que eu…
- Continue. Depois que você…
- Depois que eu terminasse com você.
- É por isso que está terminando. Eu sabia!
- Não é por isso.
- É por que então?
Eu vou ter falar que estive com Clarice.
- Por mim. Não suporto mais ficar sozinha. Ou você está com Clarice ou está trabalhando, viajando, e eu sinto a sua falta. E agora nem tenho mais a companhia de Márcia.
- Estou aqui agora, meu amor.
- Amor? É assim que fala com sua esposa também?
- Vamos parar de perder tempo e ir direto ao que interessa.
Ela começou a beijar meu pescoço e suas mãos subindo pelas minhas pernas…
- Pare Luisa. Pare agora.
- Você não quer que eu pare. Hmmm, você está tão gostosa! Que saudades!
Ela me beijava e algo estranho estava acontecendo. Eu não sentia arrepios, nem tremores, nem suava e minha respiração estava normal. Ela sentiu isso também.
- O que há com você?
- Não sei.
- Você está transando com a arquiteta. Não tem outra explicação.
- Eu já disse que não!
- Então é outra mulher.
- Não! Eu só não sinto mais nada por você.
Ela ficou me olhando, tentando ler meus olhos e entender por que. Como, se nem eu mesma entendia?
- Você não sente mais nada por mim? Não acredito nisso! Está tentando me castigar, não é?
- Não, Luisa. Sinto muito.
- Mas você exigiu que eu deixasse Clarice para ficar com você. Se você fez isso, é porque me ama e me deseja.
- Eu não sabia que não sentia mais nada. Só quando você começou a me tocar, é que eu… Estou muito confusa. Vai embora.
- É isso mesmo o que você quer?
- É isso.
- Está certo.
Ela abriu a porta e antes de sair, me disse:
- Mesmo você não acreditando em mim, eu te amo.
Fui para o meu quarto e me deitei na cama. Como isso foi acontecer? De uma hora para outra eu deixei de amar Luisa e de sentir desejo por ela? Meu Deus, o que está acontecendo comigo?
Acabei pegando no sono e acordei com o interfone tocando.
- Oi, Seu Januário! Pode mandar subir.
Lavei o rosto, escovei os dentes e penteei o cabelo. A campainha tocou.
- Oi!
- Oi! É bom te ver!
- Posso entrar?
- Claro!
Era Márcia.
- Quer beber alguma coisa?
- Não, obrigada. Você está bem?
- Estou. E você?
- Eu também.
Um silêncio.
- E então? Qual o motivo de sua visita?
- A felicidade.
- Mas isso é muito bom! E eu posso saber o motivo dessa felicidade?
- Você.
- Eu? Por quê?
- Sabe quem me procurou hoje?
- Não faço a mínima ideia.
- Luisa.
- Luisa?! O que ela queria com você?
- Brigar.
- Como é?
- Ela me responsabilizou pelo rompimento de vocês.
Não acredito que Luisa fez isso.
- Por que não me contou que vocês terminaram?
- Isso aconteceu hoje de manhã. Ela não deveria ter te procurado. Desculpe.
- Desculpe? Rosana, eu estou muito feliz, você nem imagina o quanto. Ela me acusou de ter influenciado você. Foi isso o que aconteceu?
- Não. Quando eu disse que queria terminar, ela pensou que você e eu estávamos tendo um caso e achou que eu estava terminando por sua causa.
- Entendi. Eu nada tenho haver com a sua decisão, não é mesmo?
- É.
- Desculpe-me incomodá-la.
Ela se levantou e foi para a porta.
- Hei! Aonde você vai?
- Vou embora. Fiz uma tremenda confusão e nada tenho a fazer aqui.
- Não quero que vá embora.
- E por que não?
- Porque senti a sua falta.
- Sentiu mesmo? Ou será que você cansou de ficar sozinha?
- Por favor, Márcia, não vamos brigar. Estou feliz que esteja aqui. Fique.
- Não, Rosana. Eu me iludi, mas você não tem culpa. O jeito como Luisa falou comigo, pensei que… Deixa pra lá. Espero que seja feliz.
- Está se despedindo de mim?
- Estou. Recebi uma proposta para trabalhar no exterior e acabo de aceitar.
- Não vou mais te ver?
- Por um longo tempo, não.
Fiquei triste com essa notícia. Eu gostava dela.
- Está bem. Boa sorte e seja feliz também.
- Obrigada.
- Márcia…
- Sim?
- Posso te dar um abraço?
Nós nos abraçamos e ela partiu. Sentirei a falta dela.





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